O Afeganistão é uma viagem

O pouco que conhecemos sobre o Afeganistão normalmente são informações que chegam até nós via matérias sobre a interminável invasão americana para caçar o Bin Laden e tentar estabelecer uma democracia forçada no país. Antes disso eram poucas e vagas notícias sobre a invasão russa e depois relatos das atrocidades cometidas pelo Talibã, com destaque para a destruição das estátuas gigantes do Buda.
Isso e o fato de que alguns exilados afegães desembarcaram uma vez em Porto Alegre e depois pediram para voltar era tudo que eu sabia até esses dias sobre o país. Era.
Acabei de ler o livro Os Lugares do Meio do historiados escocês Rory Stewart e recomendo para qualquer um que queira entender um pouco mais da complicada divisão étnica do Afeganistão, que faz com que qualquer tentativa de forçar uma democracia aos moldes ocidentais esteja condenada ao fracasso.
Peregrino
O cara fez uma caminhada de mais de 9.000 km entre 2000 e 2002, atravessando Iraque, Paquistão, Nepal, Índia e Afeganistão - ele começou a atravessar o país apenas 2 meses depois da queda do Talibã. Ele sabia falar alguns dialetos persas e havia estudado muito da história dos povos muçulmanos e esse foi um dos principais motivos pelos quais ele conseguiu terminar a viagem vivo.
Ele andou pelo país como um peregrino, dependendo da boa vontade das pessoas que encontrasse pelo caminho para conseguir comida e hospedagem, na esperança de que a tradição muçulmana de receber os viajantes seria mantida. Chegou a andar dias seguidos com quase um metro de neve pelas trilhas e temperaturas de 20º negativos. Normalmente só comia pão velho e dormia no chão das casas.
O interior do Afeganistão é habitado por quatro etnias principais: hazara, tadjique, aimaq e pashtun que falam duas línguas principais - dari e pashto. São povos muito diferente entre si, não só nos costumes como na fisionomia (os hazara - que foram perseguidos implacavelmente pelo Talibã - descendem de Gengis Khan). A única coisa em comum parece ser o Corão.
No livro ele conta como foram esses 36 dias de caminhada e mostra como é a vida em locais que parecem parados na Idade Média - miséria, fervor religioso e isolamento. Para ter mais chances de ser bem recebido nos locais onde iria passar ele sempre pegava uma carta de recomendação do chefe do lugarejo onde estava e apresentava para o próximo. Muitas vezes a única coisa que remete aos tempos atuais é a presença de fuzis Kalashnikov no ombro de quase todos que ele encontra pelo caminho.
Minarete de Jam
Impressionante também é a descoberta da cidade perdida da Montanha Turquesa perto do Minarete de Jam - um lugar que eu pagaria pra conhecer se isso fosse possível.
Hoje ele está morando em Cabul e criou uma organização para tentar preservar o patrimônio da Montanha Turquesa, chamado Turquoise Mountain Foundation. No site é possível ver algumas fotos muito boas dos locais.
Turista
Como disse um cara do governo para ele no começo da caminhada: “você é o primeiro turista do Afeganistão. Estamos no meio do inverno; nos passos mais elevados há três metros de neve e lobos, e está havendo uma guerra. O senhor vai morrer, posso garantir”.
Sobreviveu e acho que é o único turista até hoje.
[update] Esqueci de mencionar o Caçador de Pipas que deu um pouco de noção sobre os hazara.
Publicado em | 29 Julho 2008 |
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